A entrada de Portugal na União Europeia saldou-se em inúmeros benefícios, como a inclusão do território luso no espaço mais amplo da comunidade internacional, com todas as vantagens que este acto implica, o apoio financeiro proporcionado pelos fundos comunitários e a adesão ao Euro, a nova moeda única.
O Euro afigura-se porventura a mudança mais drástica que a nação portuguesa e os restantes vinte e cinco membros da Europa foram obrigados a realizar, com a excepção da Inglaterra, onde a libra continua a ser usada, devido ao conservadorismo e tradição vincada da terra de Sua Majestade. Em troca de uma moeda de valor elevado e passível de competir com o dólar abdicámos do velho escudo, dos contos de réis e tostões, e das faces gravadas com símbolos e figuras que pertencem ao imaginário lusitano, enraizado na memória ancestral de oito séculos de História.
Porém o passado de um povo encontra-se à venda e se a licitação for aprazível a transacção efectua-se sem mais delongas. Começámos com a moeda, prosseguimos com a língua, e pouco faltará para que a alma e o sentimento que nos caracterizam passem também a figurar no leilão da cultura.
Avançamos, contudo, com indiferença, mergulhados nos afazeres pessoais do quotidiano e no individualismo próprio das sociedades de massas. Chegará a altura em que sentiremos a necessidade de examinar o peito, em busca de um ruído ou vibração, do batimento regular e constante que esperamos do coração e ouviremos apenas silêncio. Haverá um momento em que pousaremos as mãos sobre a cabeça numa tentativa de pressentir a centelha de um pensamento e seremos invadidos por uma sensação de vácuo.
Quando o espírito for esvaziado do seu conteúdo e a estultícia vier render a inteligência seremos confrontados com uma lacuna difícil de preencher. Despojados de uma identidade procuraremos conceber outra que ponha cobro à incerteza. Talvez nem seja preciso ir tão longe, bastando assumir uma que já exista e deseje aumentar o seu rol de seguidores.
A identidade europeia, alguém dirá, convicto de que o Euro e os organismos legislativos e judiciais da União Europeia constituem prova elucidativa de que todos somos europeus. Todavia essa mesma voz emudeceria rapidamente se indagássemos de chofre os traços e características que compõem a idiossincrasia de um europeu. A muito custo enunciaria os pontos que aproximam a displicência latina do rigor nórdico, a bonomia francesa da seriedade anglófona, ou a exuberância espanhola da severidade austríaca.
Em boa verdade, o factor que une a diversidade dos povos consiste na ambição comum de prosperar. A antiga sociedade do carvão e do aço, gérmen daquilo que viria a ser a um dia a União Europeia, jamais escondeu o interesse económico que a movia e que apenas se concretizaria na paz.
Mais tarde, com o alargamento da mesma sociedade a outros Estados, nasceria a Comunidade Económica Europeia. Os anos volveram e o termo “económica” foi suprimido, o que deu origem à Comunidade Europeia e depois à designação actual. No entanto, o que a expressão “União europeia” ganhou em termos daquilo que chamamos politicamente correcto perdeu em honestidade, levando a crer que estamos perante uma irmandade de povos em vez de uma mera associação económica entre Estados.
Resta saber se uma aliança fundada nestes moldes irá sobreviver aos desafios do futuro e se a homogeneização da cultura trará custos ou proveito aos povos.
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