Desde o início do processo Casa Pia que Carlos Cruz proclama a sua inocência, atribuindo a suspeita e desconfiança que recaem sobre si próprio a uma cabala dirigida por personalidades obscuras com o intuito de o destruir. Nem mesmo a sua condenação no fim do julgamento dissuadiu Cruz de continuar a repudiar a autoria de vários crimes de abuso sexual infligidos a crianças do instituto. No entanto, como acontece amiúde na teoria da conspiração, o apresentador absteve-se até ao momento de avançar com provas que suportem a audácia das suas suposições.
A lista que Cruz revelou ao público, contendo centenas de nomes de indivíduos supostamente ligados ao processo, parece uma tentativa desesperada de abater um alvo no meio da treva. Muito mais grave que isso afigura-se-me a total ausência de um motivo que levasse alguém a acusar o senhor televisão dos actos hediondos que caracterizam este caso. Custa bastante a crer que Cruz, uma conhecida figura da televisão marcada pela popularidade tremenda entre os espectadores, instigasse o ódio de quem quer que fosse. A inveja também constitui uma desculpa fraca, pois ainda que muitos desejassem a sua ruína por despeito, seria extraordinário que se organizassem de forma tão eficiente para cumprir uma vingança. Por outro lado, imagino que outras vedetas do mundo televisivo, dotadas de fortuna pessoal e privigélios, atraíssem o mesmo tipo de represálias por razões idênticas, o que jamais sucedeu.
Posto isto, ou os conspiradores de Cruz foram movidos por sentimentos diversos daqueles que enumerei, hipótese que me provoca dúvida, ou o móbil da sua perseguição ao apresentador possui outras raízes mais fundas e insondáveis, que são decerto fruto da ficção. Por outras palavras, a conspiração existe apenas na renitência de uma mente culpada, mas demasiado orgulhosa para reconhecer que prevaricou.
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