sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A era do pastiche


No presente o conceito de originalidade enfrenta sérias dificuldades, visto que tudo já foi dito ou inventado. De facto, a demanda pelo novo parece levar a uma repetição de temas. A novidade transformou-se em nostalgia, o que talvez explique o reaparecimento periódico de antigos modelos estéticos, políticos e filosóficos. Aparentemente, vivemos numa era de profunda reciclagem do saber, em que predominam os movimentos que começam com “pós”, como pós-impressionismo, pós-estruturalismo e pós-industrial, e “neo”, como neo-impressionismo, neo-classicismo, e neo-colonialismo.

O esgotamento do novo traduziu-se no culto da cópia ou pastiche, que a sociedade multiplica inúmeras vezes. No cinema, por exemplo, o remake de um filme clássico ocorre praticamente todos os anos, mudando apenas o realizador, os actores e a qualidade dos efeitos especiais, que tendem a melhorar. As versões multiplicam-se de tal maneira que cada geração engendrou o seu próprio Drácula ou Frankenstein. Aliás, bastaria verificarmos o número de actores que desempenharam estas personagens ao longo do tempo para confirmar esta hipótese.

No primeiro caso, deparamos com Christopher Lee, Bela Lugosi, e Gary Oldman e no segundo Boris Karloff, Raul Júlia e Robert Deniro. O melhor exemplo, no entanto, encontra-se na saga de James Bond, uma personagem interpretada por estrelas de épocas bem diferentes, como Sean Connery, Roger Moore e, mais recentemente, Daniel Craig. Simultaneamente, a televisão fornece a Hollywood um manancial de narrativas que rapidamente se transformam em longas-metragens. Damos os exemplos de O Fugitivo, de 1993, de Andrew Davis, Os Flinstones, de 1994, de Brian Levant, Missão Impossível, de 1996, de Brian de Palma, e Ficheiros Secretos, de 1998, de Rob Bowman.

Um raciocínio semelhante aplica-se à música, uma área que privilegia a técnica do cover, ou seja, a interpretação de um êxito antigo. As bandas novas utilizam esta estratégia para atingir rapidamente o estrelato, actualizando a versão que apareceu em primeiro lugar. Por outro lado, a formação de conjuntos musicais obedece a uma fórmula bem definida, geralmente um estudo de mercado, ao invés de acontecer espontaneamente, como alguns pensam. Neste sentido, todos os grupos copiam uma receita de sucesso, a qual garante com antecipação a sua popularidade dentro de um segmento de mercado. Os fans, por seu turno, captam as imagens e som dos concertos com os telemóveis, o que se salda em inúmeras reproduções que circulam pela Internet.

A fotografia também contestou o conceito de originalidade e autenticidade através do trabalho de Cindy Sherman e Sherrie Levine. Sherman e Levine lançam dúvidas sobre os direitos de autor, voltando a fotografar imagens bem conhecidas, que depois apresentam como suas, e redefinem o papel do artista. Estas escritoras desafiam a definição tradicional de artista e obra de arte, segundo a qual existe um único autor responsável pelo processo criativo. Numa realidade dominada pela cópia, que surpreende pela sua semelhança com o “original”, a autoria está destinada a desaparecer e a criação de arte implica a apropriação ou subversão dos objectos culturais por vários sujeitos.

A cultura popular concentra em si referências a várias épocas históricas, quer se tratem de actores, cantores ou políticos, quer sejam movimentos de arte ou acontecimentos históricos. Estas questões estão presentes em filmes, músicas, peças de teatro e programas de televisão. As interligações entre tudo aquilo que se cria aumentaram indubitavelmente, o que conduziu a que estes produtos roubem, parodiem ou celebrem o que quiserem.

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